Jornal Virtual de Santo Antônio do Aventureiro

Um Apólogo (O apólogo é uma narrativa cujas personagens são objetos antropomorfizados, e de onde se pretende tirar uma lição de moral.

Publicado por: Clério Rios em: 11 de janeiro de 2010



Um Apólogo

Machado de Assis


Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:

— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada,

para fingir que vale alguma cousa neste mundo?

— Deixe-me, senhora.

— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável?

Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.

— Que cabeça, senhora?  A senhora não é alfinete, é agulha.

Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar?

Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.

— Mas você é orgulhosa.

— Decerto que sou.

— Mas por quê?

— É boa!  Porque coso.  Então os vestidos e enfeites de nossa ama,

quem é que os cose, senão eu?

— Você?  Esta agora é melhor. Você é que os cose?

Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?

— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço

ao outro, dou feição aos babados…

— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você,

que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando…

— Também os batedores vão adiante do imperador.

— Você é imperador?

— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante;

vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo.

Eu é que prendo, ligo, ajunto…

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa.

Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa,

que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela.

Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha

na agulha, e entrou a coser.  Uma e outra iam andando orgulhosas,

pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira,

ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:

— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco?

Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo;

eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima…

A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela,

silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas.

A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando.

E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano.

Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte.

Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.

Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se,

levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário.

E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro,

arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:

— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa,

fazendo parte do vestido e da elegância?

Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a

caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas?

Vamos, diga lá.

Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não

menor experiência, murmurou à pobre agulha:

— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida,

enquanto aí ficas na caixinha de costura.

Faze como eu, que não abro caminho para ninguém.

Onde me espetam, fico.

Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:

— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!

Conheça o autor e sua obra visitando “Biografias“.

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